Pontos-chave:
- Os verbos em francês se dividem em três grupos, e o primeiro, terminado em -er, sozinho cobre cerca de 90% de todos os verbos da língua.
- Je parle, tu parles, il parle e ils parlent se escrevem de quatro jeitos e se pronunciam exatamente igual: conjugar em voz alta é bem mais fácil do que no papel.
- Être e avoir são irregulares, mas aparecem em quase toda frase e ainda servem de auxiliares no passado: valem mais do que qualquer lista de cem verbos.
- Com presente, passé composé e futur proche você já fala de ontem, de hoje e de amanhã.
- Vários verbos franceses são falsos amigos: entendre é ouvir, attendre é esperar e quitter é deixar.
Quatro formas escritas, um só som
Antes de querer decorar qualquer tabela, faça um teste. Leia em voz alta estas quatro formas do verbo parler (falar): je parle, tu parles, il parle, ils parlent. Se você pronunciou tudo certo, ouviu exatamente o mesmo som quatro vezes: /parl/. As terminações -e, -es e -ent são mudas.
Essa é a informação mais útil que existe sobre os verbos em francês e quase nenhuma aula começa por ela. No presente, as seis formas de um verbo regular do primeiro grupo se resumem a três pronúncias: o radical sozinho (je parle, tu parles, il parle, ils parlent) e mais duas formas com terminação audível, nous parlons e vous parlez.
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Ou seja: a conjugação francesa é bem mais difícil de escrever do que de falar. Quem estuda só pelo papel enfrenta a versão complicada de um sistema que, na boca, é bem simples. Guarde esse detalhe porque ele muda a forma de estudar tudo o que vem a seguir.
Os três grupos de verbos em francês
O francês organiza seus verbos em três grupos, definidos pela terminação do infinitivo e pelo comportamento na hora de conjugar. Saber em qual grupo um verbo cai é o que permite prever as terminações sem consultar nada.
Primeiro grupo: os verbos terminados em -er
É de longe o maior grupo: cerca de nove em cada dez verbos franceses terminam em -er e seguem o mesmo molde de parler. Travailler (trabalhar), aimer (gostar), regarder (olhar), habiter (morar), chercher (procurar): todos funcionam igual. Melhor ainda, esse é o grupo produtivo da língua, aquele que recebe as palavras novas – quando um verbo entra no francês contemporâneo, como télétravailler, ele entra como verbo em -er.
As terminações do presente são -e, -es, -e, -ons, -ez, -ent. Vale decorar essa sequência uma vez na vida, porque ela vai servir para milhares de verbos. Uma exceção importante: aller (ir) termina em -er, mas é totalmente irregular e pertence ao terceiro grupo.
Segundo grupo: os verbos que terminam em -ir com -iss-
São uns trezentos verbos terminados em -ir que ganham um -iss- nas formas do plural. Finir (terminar) é o modelo: je finis, tu finis, il finit, nous finissons, vous finissez, ils finissent. Na mesma família estão choisir (escolher), réussir (conseguir), grandir (crescer) e obéir (obedecer).
O truque para reconhecer um verbo do segundo grupo é justamente o -iss-: se a forma de nous traz esse pedaço, o verbo é regular e você já sabe o resto. Se não traz, como em partir (nous partons) ou venir (nous venons), ele é do terceiro grupo, por mais que termine em -ir.
Terceiro grupo: os irregulares, poucos mas onipresentes
São cerca de trezentos e cinquenta verbos, e aqui está a ironia: apesar de serem uma minoria absoluta, eles são os que você mais usa. Être, avoir, faire, aller, pouvoir, vouloir, devoir, savoir, voir, dire, prendre, venir, mettre e partir estão todos aqui.
A conclusão prática é ótima: não faz sentido tentar aprender o terceiro grupo inteiro. Uns quinze verbos irregulares cobrem a esmagadora maioria das frases que você vai dizer e ouvir. O resto você encontra pelo caminho, um por vez, dentro de frases reais.
Os verbos em francês mais usados no dia a dia
Esta é a lista que vale a pena atacar primeiro. Ela está separada por situação de uso, e não por grupo gramatical, porque é assim que os verbos aparecem numa conversa de verdade.
A rotina e as ações básicas
- être – ser, estar
- avoir – ter
- faire – fazer
- aller – ir
- venir – vir
- prendre – pegar, tomar
- donner – dar
- mettre – colocar, pôr
- manger – comer
- boire – beber
- travailler – trabalhar
- habiter – morar
Vontade, opinião e possibilidade
- vouloir – querer
- pouvoir – poder
- devoir – dever, ter que
- savoir – saber
- connaître – conhecer
- penser – pensar, achar
- croire – acreditar
- aimer – gostar, amar
- préférer – preferir
- essayer – tentar
Falar, ver e se deslocar
- parler – falar
- dire – dizer
- demander – pedir, perguntar
- répondre – responder
- regarder – olhar, assistir
- voir – ver
- écouter – escutar
- lire – ler
- écrire – escrever
- sortir – sair
- partir – partir, ir embora
- trouver – achar, encontrar
Trinta e quatro verbos parecem muitos, mas repare que quase todos têm um equivalente óbvio em português. Aprendidos dentro de frases curtas, eles entram em poucas semanas – e cobrem uma fatia enorme do que se diz num dia comum.
Os falsos amigos que enganam quem fala português
O parentesco entre o francês e o português é uma vantagem enorme, até o dia em que ele arma uma armadilha. Alguns verbos franceses são quase idênticos a verbos portugueses na forma e completamente diferentes no sentido. Estes são os que mais causam confusão:
- entendre não é entender, é ouvir. Entender é comprendre. Je ne t’entends pas quer dizer “não estou te ouvindo”.
- attendre não é atender, é esperar. Attends-moi! é “me espera!”.
- quitter não é quitar, é deixar ou sair de. Je quitte le bureau à 18h: saio do escritório às 18h.
- demander não é demandar nem exigir, é simplesmente pedir ou perguntar.
- rester não é restar, é ficar. Je reste à la maison ce soir: fico em casa hoje à noite.
- assister à costuma significar comparecer a. Para dizer que você assistiu a um filme, o verbo é regarder.
- sentir quer dizer cheirar muito mais do que sentir. Ça sent bon é “que cheiro bom”.
- marcher é andar e também funcionar. Ça marche! é o “beleza, combinado” dos franceses.
- monter é subir, não montar. Monter dans le bus é entrar no ônibus.
- dépenser é gastar dinheiro, nada a ver com dispensar.
E tem um par que vale ouro na vida prática: nas portas da França você lê tirez e poussez. Tirer é puxar e pousser é empurrar – exatamente o contrário do que a intuição de quem fala português sugere. Guardar esses dois evita um vexame por semana.
Être e avoir: os dois verbos que sustentam a língua
Se você tivesse que escolher dois verbos para aprender antes de qualquer outro, seriam estes. Além do uso próprio, eles funcionam como auxiliares, ou seja, entram na construção de praticamente todos os tempos do passado.
Être (ser, estar): je suis, tu es, il/elle est, nous sommes, vous êtes, ils/elles sont. Ele cobre de uma vez só os dois verbos que o português separa, o que na prática facilita a vida. Se quiser se aprofundar, temos um guia inteiro sobre o verbo “ser” em francês, com exercícios.
Avoir (ter): j’ai, tu as, il/elle a, nous avons, vous avez, ils/elles ont. A boa notícia é que o francês usa avoir nas mesmas expressões em que o português usa “ter”: j’ai faim (tenho fome), j’ai froid (tenho frio), j’ai vingt ans (tenho vinte anos), j’ai peur (tenho medo). Quem vem do inglês tropeça aqui; quem vem do português, não. Os detalhes estão no nosso texto sobre o verbo “ter” em francês.
Vale acrescentar uma construção que aparece o tempo todo e nasce de avoir: il y a, que corresponde ao nosso “há” ou “tem”. Il y a un restaurant en face quer dizer “tem um restaurante em frente”.
Três tempos verbais e você já conversa
Uma das razões pelas quais tanta gente desiste da conjugação francesa é achar que precisa de dez tempos verbais para abrir a boca. Não precisa. Com três, você fala de ontem, de hoje e de amanhã.
O presente
É o que já vimos. Além de descrever o agora, ele serve para hábitos e até para o futuro imediato, exatamente como em português: je pars demain é “eu parto amanhã”.
O passé composé
É o passado da conversa. Forma-se com avoir ou être no presente mais o particípio do verbo: j’ai mangé (eu comi), j’ai parlé (eu falei), j’ai vu (eu vi). Atenção a uma confusão frequente: apesar da forma composta, j’ai parlé corresponde ao nosso “eu falei”, e não a “eu tenho falado”.
A maioria dos verbos usa avoir. Um grupo pequeno de verbos de movimento e de mudança de estado usa être: aller, venir, arriver, partir, entrer, sortir, monter, descendre, naître, mourir, rester, tomber, retourner, devenir. Com être, o particípio concorda com o sujeito: elle est allée, ils sont partis, nous sommes venus.
O futur proche
É o atalho mais generoso do francês para quem fala português. Basta conjugar aller e colocar o verbo principal no infinitivo: je vais manger (vou comer), on va voir (vamos ver), tu vas adorer (você vai adorar). A estrutura é idêntica à nossa, então você já sabe usá-la sem estudar nada.
Meu conselho como falante nativa de francês: gaste seu tempo com o passé composé e esqueça o passé simple por enquanto. Ele aparece em romances e em contos de fada, mas ninguém diz je fus ou il alla numa conversa – nem em Paris, nem em Marselha. E um segredo que talvez te console: a concordância do particípio passado dá nó na cabeça dos franceses também. A gente hesita, erra e corrige por escrito. Se um nativo hesita, você tem todo o direito de fazer o mesmo.
As pequenas mudanças de grafia que derrubam quem estuda sozinho
Vários verbos do primeiro grupo são perfeitamente regulares no som, mas mudam a escrita para preservar a pronúncia. Como ninguém avisa, o estudante conclui que são irregulares e desanima. São só cinco padrões:
- Verbos em -ger ganham um e na forma de nous, para manter o som suave do g: manger vira nous mangeons.
- Verbos em -cer ganham cedilha na mesma forma: commencer vira nous commençons.
- Verbos como acheter ganham acento grave quando a sílaba seguinte é muda: j’achète, mas nous achetons.
- Verbos como appeler dobram a consoante no mesmo contexto: j’appelle, mas nous appelons.
- Verbos com é na última sílaba do radical trocam por è: je préfère, mas nous préférons.
Repare que o padrão é sempre o mesmo: a escrita muda onde a pronúncia mudaria. E as formas de nous e vous, que têm terminação audível, quase sempre ficam com o radical original.
Dica: em vez de decorar essas listas, aprenda cada verbo já numa frase da sua própria rotina – je préfère le café, nous commençons à huit heures, je m’appelle…. A grafia certa vem colada na frase, e você nunca mais precisa lembrar da regra abstrata.
Verbos pronominais e a preposição que vem depois
Os verbos pronominais franceses são velhos conhecidos de quem fala português, porque nós também dizemos “levantar-se” e “chamar-se”. A diferença está na posição: em francês o pronome vem sempre antes do verbo, nunca colado depois. Assim, se lever vira je me lève, tu te lèves, il se lève, nous nous levons, vous vous levez, ils se lèvent. E s’appeler vira je m’appelle, a frase que provavelmente foi a primeira que você aprendeu.
Um detalhe que economiza erro: no passado, todo verbo pronominal usa être, sem exceção. Diz-se je me suis levé (ou levée, se quem fala é uma mulher), nunca je m’ai levé. Se os pronomes ainda te embaralham, vale rever os pronomes em francês antes de seguir.
Por fim, guarde cada verbo junto com a preposição que o acompanha, porque ela raramente coincide com a do português. Commencer à e essayer de pedem preposição antes do infinitivo. Penser à é pensar em alguém. Jouer à serve para esportes e jogos, jouer de para instrumentos: jouer au foot, mas jouer du piano. E téléphoner exige o à que o português brasileiro costuma dispensar: je téléphone à ma sœur.
Se você quer uma forma concreta de começar hoje, escolha cinco verbos desta página e escreva a sua manhã com eles: a que horas você se levanta, o que toma no café, para onde vai, o que faz no trabalho, a que horas volta. Cinco frases suas valem mais do que cinco tabelas decoradas, e o vocabulário básico para montá-las está no nosso guia de francês para iniciantes. Depois é só repetir amanhã, com o passé composé.



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